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Todos me chamavam de louco por casar com uma mulher de 60 anos, mas na nossa noite de núpcias notei uma marca no ombro dela, ouvi “Preciso te contar a verdade” e percebi que toda a minha vida tinha sido construída sobre um segredo.

 

Mas eu aguentei firme. Lutei por ela. Defendi-a contra todos. Quando a câmara municipal realizou uma reunião sobre o casamento que se aproximava, entrei, com o coração a bater forte, e disse: “Ela é a minha esposa. Isso é tudo o que importa.” A sala ficou em silêncio, para depois irromper em murmúrios.

Mesmo quando minha mãe, que sempre fora meu porto seguro, sentava-se à minha frente na mesa da cozinha, com as mãos trêmulas na borda, eu conseguia ver a mesma marca de nascença que ela carregava na clavícula — uma mancha escura e redonda, com bordas irregulares. Era uma cicatriz da qual ela nunca falava, um segredo que mantinha escondido sob camadas de seda e orações.

A Cerimônia.
O casamento foi um turbilhão de arranjos brancos e luz de velas que parecia brilhar mais forte que o sol. Os músicos tocavam como se a celebração fosse para pessoas poderosas, seus violinos e trompetes ecoando pelos tetos abobadados. Muitos homens vestidos de preto, com os rostos escondidos atrás de fones de ouvido, permaneciam como estátuas, seus olhares percorrendo a multidão. A segurança tomava conta do perímetro, um mar de uniformes e semblantes severos.

Sim, eu reparei. O jeito como os guardas ficavam perto da entrada, o jeito como os homens de preto cochichavam em seus rádios, o jeito como o lustre acima de nós balançava levemente, como se o próprio prédio estivesse prendendo a respiração.

Mas eu estava cega pelo que sentia. Celia caminhou pelo corredor, seu xale esvoaçando atrás dela como um rio noturno. Quando chegou até mim, colocou uma única rosa branca sobre meu peito e, por um instante, o mundo se restringiu a nós duas, o perfume das rosas se misturando com o leve cheiro de poeira.

“Eu te amo, Efraín”, ela sussurrou, e sua respiração quente roçou minha orelha.

“Eu também te amo”, respondi, com a voz embargada, as palavras jorrando como uma represa se rompendo.

O padre, um homem com uma cruz de prata pendurada no pescoço, nos abençoou, sua voz reverberando pelas paredes de pedra. A multidão aplaudiu, o som reverberando nos arcos, uma cacofonia de aprovação que parecia distante, como se pertencesse a outra pessoa.

Sozinhos no quarto
Mais tarde naquela noite, quando as velas já estavam quase apagadas e os músicos tinham guardado os instrumentos, finalmente estávamos sozinhos. O quarto era enorme, com janelas que davam para o pátio iluminado pelo luar, e as cortinas abertas revelavam um céu estrelado.

Celia fechou a pesada porta de carvalho com as mãos trêmulas, o clique ecoando no silêncio. Ela colocou um envelope grosso e um molho de chaves sobre a mesa de mogno.

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