Os vizinhos se reuniram em frente ao portão como se fosse uma festa da cidade. Dona Elvira, a mulher mais fofoqueira do quarteirão, chegou usando seu avental e com a boca cheia de veneno.
—Oh, Daniela, que vergonha. Você cria filhos só para eles virem humilhar a família. Olha só a sua pobre mãe chorando.
Respirei fundo.
—Dona Elvira, com todo o respeito, a senhora não sabe de nada.
—Eu sei o suficiente. Seu tio é parente de sangue da sua mãe. A família se ajuda mutuamente.
—Ajudar não significa deixar meus pais dormirem num quarto imundo enquanto outros destroem a casa deles.
As pessoas começaram a murmurar.
Ramiro aproveitou a situação. Saiu para o pátio com semblante de mártir, desabotoou um botão da camisa e ergueu as mãos como se estivesse diante de um juiz.
“Vizinhos, vocês me conhecem. Eu não sou uma pessoa má. Minha irmã abriu a porta para mim porque viu que eu estava desesperada. Minha casa foi vendida para pagar dívidas. Não tenho um emprego fixo. Meus filhos são inocentes. E agora minha sobrinha vem nos expulsar como se fôssemos cachorros?”
Patrícia enxugou lágrimas falsas.
—Nós alimentamos os cavalheiros. Fazemos companhia a eles. Essa moça aparece uma vez por ano e quer mandar em tudo.
Minha mãe tremia ao meu lado. Eu sabia que cada palavra que diziam era como uma corda apertando seu coração.
Então Andrés falou.
—Eles os alimentam? E por que a Sra. Carmen tem um saco de pão amanhecido escondido no quarto dela?
Patrícia abriu os olhos.
—O que você disse?
Andrés pegou o celular. Ele tinha tirado fotos antes de descer. Na tela estava o quarto dos meus pais: uma cama velha, pilhas de roupas, uma bandeja com feijão frio e pão amanhecido.
As pessoas começaram a ficar em silêncio.
Dei um passo à frente.
—Minha mãe não quis dizer nada porque estava envergonhada. Meu pai não se manifestou porque não queria causar problemas. Mas isso já passou.
Ramiro rangeu os dentes.
—Não invente coisas.
“Não estou inventando nada. Você contou a história de que perdeu a casa, mas notei algo estranho desde o momento em que cheguei. Se você realmente não tinha nada, por que Patricia está trazendo joias novas? Por que seus filhos têm tablets? Por que há caixas de bebidas caras no armário?”
Patrícia cruzou os braços.
—Isso não é da sua conta.
—Sim, é quando eles estão morando em uma casa que eu construí para meus pais.
Naquele instante, meu primo mais novo, Emiliano, um menino de 8 anos, saiu correndo da sala de estar com um pacote de batatas fritas. Sua irmã, Sofia, veio atrás, carregando alguma coisa. Dei uma olhada rápida nela, mas foi o suficiente.
Ele estava usando o relógio de ouro do meu pai.
—Sofia— — perguntei com voz gélida —, de onde você tirou isso?
A menina permaneceu imóvel.
Patrícia correu em direção a ela.
—Me dá isso, sua boba.
Mas já era tarde demais.
Meu pai olhou para cima e reconheceu o relógio. Era o único presente caro que ele já havia comprado para si mesmo, depois de 35 anos trabalhando no mercado.
“Aquele relógio estava guardado na minha gaveta”, murmurou ele.
O silêncio tornou-se pesado.
Ramiro tentou rir.
—Ah, são só crianças. Elas pegam qualquer coisa para brincar.
Mas o rosto de Patricia não demonstrava indiferença. Era um rosto de medo.
Voltei para o andar de cima, desta vez sem pedir permissão. Abri gavetas, armários e malas. Patricia gritava atrás de mim.
—Você não pode mexer nas minhas coisas!
—Na minha casa, sim.
Andrés a deteve sem tocá-la, apenas se colocando entre ela e o corpo.
No quarto principal, dentro de uma mala preta, encontrei a primeira pista: uma caixa de veludo azul com os brincos da minha mãe. Depois apareceram uma corrente de ouro, três anéis, minha pulseira de batismo e até um caderno com anotações.
Quando abri aquele caderno, senti um frio na barriga.
Havia uma lista de preços.
“Tela grande: 8.000”
“Sala de jantar: 12.000”
“Refrigerador: 15.000”
“Joias da Sra. Carmen: consulte-nos”
Minha mãe encostou-se na parede.
-Isso simplesmente não pode ser…
Ramiro já não gritava. Patricia também não chorava.
Os dois se entreolharam como ladrões pegos no meio da noite.
Mostrei o caderno para todos.
—Eles não vieram morar aqui porque não tinham para onde ir. Vieram para esvaziar a casa aos poucos.
Dona Elvira cobriu a boca.
Mas o pior ainda estava por vir.
Entre as roupas de Patricia, encontrei um contrato de arrendamento. Não um contrato de aluguel. Era da casa dela.
A casa que supostamente haviam vendido ainda era deles. Eles a haviam alugado para uma família de Morelia por um ano inteiro.
Ramiro mentiu desde o início.
Ele havia mandado meus pais para o menor quarto, ocupado a casa deles e ainda cobrava aluguel pela própria casa.
Minha mãe soltou um grito que me dilacerou.
Ramiro caiu de joelhos.
—Carmencita, me escute…
Mas antes que ele pudesse terminar, ouviu-se uma viatura policial parando do lado de fora.
Andrés olhou para mim.
—Eles chegaram.
PARTE 3





